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Publicado em: 07/04/2011
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Investigadores do passado

Vilma Homero

  

 Divulgação

    

           Mastodontes mortos após período de seca foram 
           comidos por
protocyons, antecessores dos cães   

A próxima edição da Journal of South American Earth Sciences, prevista para o início de maio, trará um artigo de paleontólogos brasileiros que reproduzem o cenário de uma região do interior mineiro há 60 mil anos. A reconstituição foi feita a partir de fósseis de Haplomastodon waringi, os mastodontes brasileiros, que há pelo menos 50 anos fazem parte do acervo do Museu de Ciências da Terra, do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), no Rio de Janeiro. Estudos feitos pela equipe de paleontólogos do Laboratório de Mastozoologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) e do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) mostraram como foi a vida e, em particular, a morte dessa população de mastodontes, descoberta em Águas de Araxá, em Minas Gerais.  

 

Animais aparentados com os elefantes africanos, os mastodontes estavam entre os maiores mamíferos que habitaram a América do Sul durante o pleistoceno. Em Águas de Araxá, eles conviveram com cavalos, preguiças gigantes e macrauquênias, bichos parecidos com camelos, que apresentavam uma pequena tromba. Como descobriram os paleontólogos da equipe coordenada por Leonardo dos Santos Avilla, a população de mastodontes da região sucumbiu a um período de grande escassez de água. “Era um grupo de mais ou menos 40 indivíduos, de diferentes faixas etárias, desde filhotes até animais com mais de 60 anos de idade. Depois de mortos, suas carcaças, expostas durante um período de cerca de 230 dias, sofreram a ação de canídeos necrófagos, sendo depois alvo de larvas de insetos”, explica Avilla.

 

Chegar a essa conclusão não é simples como pode parecer à primeira vista. “Primeiro, estávamos lidando com fósseis guardados há 50 anos, que só recentemente começaram a ser estudados”, fala Avilla. Na verdade, cada peça desse quebra-cabeças pré-histórico foi fruto de intensas pesquisas, envolvendo técnicas modernas, desde, por exemplo, tomografias e lupas estereoscópicas até conhecimentos de entomologia forense. Reconhecer a estrutura e classes etárias da população desses animais foi objeto do estudo de Dimila Mothé, uma das especialistas que, ao lado de Avilla, de Victor Hugo Dominato e Rafael Costa da Silva, também assina o artigo.

 

À época bolsista de Iniciação Científica da FAPERJ, Dimila determinou a idade dos animais observando o padrão de desgaste dos dentes. “Embora a técnica seja conhecida, ainda não tinha sido aplicada a mastodontes”, explica Avilla.  Para descobrir quais carnívoros – entre ursídeos, felídeos e canídeos – seriam os suspeitos mais prováveis de terem se alimentado das carcaças dos mastodontes mineiros, os pesquisadores precisaram recorrer a lupas estereoscópicas e microscópios, levados para uma sala do museu, improvisada em laboratório.

 Divulgação
 
   Além das marcas de mordidas, ossos apresentam furos 
      profundos que indicam a ação de larvas de besouro
 
“Depois de ter as superfícies bem limpas, uma vez que os ossos foram guardados por tanto tempo, estudamos as marcas que podiam ser dos dentes de qualquer um daqueles três carnívoros. Assim, chegamos aos canídeos, cujas mordidas tem características específicas”, explica Avilla. Para chegar a esse resultado, eles compararam o padrão das mordidas de canídeos atuais com as marcas encontradas nos fósseis. “Eram realmente canídeos, de uma espécie já extinta, Protocyon troglodytes, animais maiores do que os lobos atuais, com cerca de 2m da ponta do focinho à ponta da cauda”, diz o pesquisador. 

 

Outras marcas mereceram igual atenção dos especialistas. Perfurações profundas nos ossos, incompatíveis com mordidas de carnívoros, tiveram sua origem investigada pelos pesquisadores. Como o raio X não resultou numa imagem com a acuidade  necessária, eles recorreram até a um tomógrafo, que evidenciou que não se tratava de marcas de mordidas. “Como também não eram fruto de rolamento, que acontece quando o material desliza sobre o solo durante os milhares de anos do processo de fossilização, pesquisamos trabalhos de entomologia forense sobre fósseis de elefantes africanos”, conta Avilla. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que as perfurações se deviam à ação de larvas de besouros. Por se alimentarem da parte esponjosa dos ossos, essas larvas só chegam às carcaças expostas depois que elas já perderam as camadas de pele e de gordura. “Isso também nos deu uma estimativa do tempo de exposição das carcaças, algo em torno dos 230 dias.”    

 

Para Avilla, o trabalho mostrou que sempre é possível extrair novas informações de fósseis, mesmo aqueles que tenham sido descobertos há dezenas de anos. “Não é por acaso que colegas de outras áreas nos chamam de CSI da paleontologia, já que costumamos buscar evidências para recuperar informações sobre vida e morte de animais já extintos”, comenta. Ele enfatiza também que a coleção de Araxá teve uma importância enorme, já que foi a partir da descoberta desses fósseis, nos anos 1950, que foi criada a única lei de proteção ao patrimônio fossilífero nacional. “E só recentemente, 50 anos depois da descoberta, pudemos começar os estudos sobre esse material, com o apoio do Instituto Virtual de Paleontologia da FAPERJ”, fala Avilla. Ele se entusiasma ainda mais ao revelar que todas as informações descobertas serão apresentadas na III Jornada de Zoologia da UniRio (http://www.unirio.br/ecb/zoologia/jornadazoo2011//), maior evento regional da área, previsto para acontecer entre os dias 11 e 13 de maio deste ano.

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